quinta-feira, 29 de março de 2012

Sorrindo com os deuses...


O velho, que supostamente deveria estar voltando da padaria, chega com as sacolas pão numa mão e um embrulho meio molhado na outra. E o cheiro denuncia o conteúdo do pacote: camarões. Ponho os camarões para cozinha no vapor e fico observando enquanto eles lentamente vão mudando da coloração enquanto aprecio o cheiro dos camarões cozendo.

Eu sinto um prazer simplório de observar a transformação, de beliscar uns camarões, enquanto tomo uma coca-cola estupidamente gelada e converso com o velho. E eu me pergunto se é o mesmo prazer que os deuses sentem enquanto assistem os seres humanos se transformando lentamente em cadáveres. Vendendo um belo naco da alma a cada dia para trocar por carros mais potentes que vão ficar presos em engarrafamentos, por casas maiores para as quais só vão para dormir ou por viagens que os levem para bem longe da vida que escolheram viver.

Definhando cada dia física e mentalmente até que só sobre uma carcaça vazia a ser descida dentro de um estúpido caixote de madeira numa cova. Ao homem só resta duas opções: virar mito ou virar cadáver. E a maioria de nós, no final, servirá apenas de alimento aos vermes.

Os deuses com certeza devem se divertir muito as nossas custas... Eu belisco mais um camarão,tomo outro gole de refrigerante e, só por hoje, sorrio com os deuses...

3 comentários:

Rachel Chagas disse...

Eu acho que no final, todos nós serviremos apenas de alimento aos vermes.

Lais Castro disse...

Pois... ao pó tornaremos... mas, enquanto isso, e nos intervalos dos percalços... que bom que podemos comer um bom camarão, alguns de nós, que o mundo está cheio de quem não pode nada... é só olhar em volta.
Abraço.

Leonardo Xavier disse...

Bem provável, Rachel.

Realmente, Lais. O jeito é aproveitar a nossa curta existência.

abraços