segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ralo abaixo...

Ralo abaixo


Giro a torneira do chuveiro, água quente cai sobre minha cabeça e, enquanto escorre, lava não só o corpo. Pelo ralo do chuveiro, junto com a espuma e água, vão a exaustão, os aborrecimentos e as frustrações. Sinto o alívio triste de ter deixado mais um dia cansativo para trás e não há mais preocupações me aguardando, pelo menos não até que o despertador toque amanhã.


E é o toque do despertador pela manhã que sempre me faz lembrar que tenho que voltar para a selva urbana com seus congestionamentos, trabalho e a multidão anônima, formada por infinitos rostos desconhecidos. Se tornar mais um rosto desconhecido. Mas eu não quero pensar nisso, não neste momento.


Tudo que preciso agora é uma roupa confortável e aproveitar a fração da minha vida que verdadeiramente me pertence. Jogar-me no sofá, ler um romance e depois sentar na frente do computador e escrever até que o sono me derrube. Amanhã será um novo dia... E se será pior, ou melhor, eu realmente não sei. Só sei que o tempo que me resta vai escoando rumo ao vazio.

sábado, 17 de setembro de 2011

Outra vida...

Nada é mais estranho do que voltar a um lugar ou a uma pessoa que já lhe foi tão intimo e tão estimado e perceber que você já não reconhece mais esses sentimentos dentro de si. Tudo parece tão longe e distante e chega-se a ponto de duvidar de que tudo isso aconteceu nessa vida mesmo. Desconfia-se de alguma peça que a memória esteja nos pregando.


Aparentemente, toda a tentativa de voltar ao ponto onde esses sentimentos existiam é vã, último esforço destroçado pela artificialidade. Você percebe que qualquer nova tentativa vai continuar resultando em sentimentos tão falsos quanto plantas de plástico. Então, então você percebe que tudo foi realmente em outra vida. “Não és mais o mesmo homem...” te sopra uma voz na consciência. “... e nunca o serás” ela continua.


Então eu aceito que aquele lugar ou pessoa não é a mesma pessoa que eu conheci e que talvez eu realmente não seja mais o mesmo homem que partilhou daqueles momentos. Possivelmente, tentar fingir que tudo continua igual seja a atitude mais artificial a ser adotada. O mais honesto a fazer, provavelmente, é admitir que talvez tenha realmente sido outra vida.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O céu de Swedenborg e nossos infernos pessoais.

Chegou-me através de uma palestra transcrita de um Borges que já não era mais escritor e nem tampouco leitor, em decorrência da cegueira, o conhecimento de um homem chamado Emanuel Swedenborg e de sua doutrina. E apesar de não ser um homem dado a questões espirituais, sua doutrina me chamou a atenção pela questão do livre arbítrio no post mortem. Segundo Swedenborg, as pessoas passeavam, após a morte, pelo paraíso e pelos diversos infernos até que em dado momento acabavam escolhendo onde se assentar não por um julgamento de uma divindade superior, mas por aquele local ser o local onde a pessoa se sentiria mais a vontade. As pessoas boas se sentiriam bem no céu realizando suas atividades intelectuais, enquanto as pessoas más se sentiriam melhor no inferno conspirando umas contra as outras.


Eu realmente não sei se existe um paraíso ou um inferno em outro plano espiritual, mas a idéia de Swedenborg para mim justifica muito dos nossos próprios paraísos e infernos na terra. A maior parte deles escolhidos com o nosso próprio livre arbítrio e aos quais nos atrelamos por puro comodismo, pois por mais que achemos certas situações ruins ou imperfeitas, se decidimos no manter atreladas a elas é porque de certa forma essa ainda é a situação onde nos sentimos mais comodamente assentados. Nossos paraísos e nossos infernos pessoais, ainda que o neguemos, são sempre os lugares onde nos sentimos realmente bem.