sábado, 20 de agosto de 2011

Pequenos Deuses


Talvez a essência das divindades sempre tenha sido a capacidade de sintetizar, o que me faz pensar que todo homem que constrói, cria e transforma alguma sempre é um pequeno deus. Pequenos criadores de microcosmos diferentes através da música, da poesia ou tecnologia. Pequenos microcosmos, que algumas vezes conseguem mudar o mundo.


O Borges escrevendo “Os Fragmentos de um Evangelho Apócrifo”, Clapton tocando “Tales of Brave Ulysses”, Miles Davis soprando o trompete, o Bukowski batendo na máquina madrugada adentro “O amor é um cão dos diabos”, Buckminster Fuller tentando transformar o mundo com suas invenções e Fernando Pessoa sendo tantos homens quantos fossem necessários para expressar a sua poesia, Todos eles deuses.


Deuses que amam, choram, sofrem e que se alegram. Ídolos de plástico vagabundo com detalhes metálicos descascando que se decompõem com o tempo, assim são esses deuses que envelhecem, adoecem e morrem em camas de hospital. Deuses fadados a imortalidade, não por si mesmos, mas pelas suas obras.



domingo, 7 de agosto de 2011

Escala de Cinza

Branco e Preto Dualismo
-Ilusão é achar que a vida é assim!

Se há algo que eu acho interessante ao assistir teledramaturgia é que por mais que os aparelhos de televisão terem adquirido cores e alta definição. As tramas ainda continuam em preto e branco na forma como os antagonistas são apresentados. O vilão é sempre antiético e mau-caráter em todos os campos da sua vida. Ele consegue ser um profissional de princípios duvidosos, um mal conjugue e um familiar problemático, tudo a um só tempo. Enquanto o herói da trama é sempre o oposto completo, a personificação da virtude.


Nesse modelo temos sempre uma polarização completa. Positivo contra negativo. Preto versus branco. Luz indo de encontro às trevas. Um conflito entre forças opostas, onde cada um dos lados tem seus limites muito bem delineados e as fronteiras entre eles são intransponíveis.


Na vida real, tanto heróis quanto vilões são capazes de transpor essa linha divisória, o meridiano de Greenwich da moral e bons costumes. Nem sempre uma pessoa que é um profissional pouco honesto é necessariamente uma má pessoa ou vice-versa. Algumas pessoas podem ser maus consortes, mas bons pais. Outras são amigos bons e leais, mas verdadeiros canalhas quando se trata de relacionamento amoroso. Resumidamente, na vida real é muito mais complicado catar as pedrinhas do feijão.


No entanto, parece existir uma cultura de interpretar a realidade nesse molde dramático. Dividindo-se a realidade em dois pólos distintos. Escolhe-se um deles para ser positivo o outro como sendo e assim rotulamos o mundo entre inimigos e aliados. O que nunca vai funcionar, porque as pessoas estão sempre cruzando as margens que separam cada uma dessas posturas. Seja lá ela qual for: política, artística, emocional. Não existe socialista que não tenha lá seus pequenos impulsos consumistas ou liberal que não reconheça a importância da justiça social para manutenção das estruturas sociais. As pessoas se alternam entre comportamentos generosos e mesquinhos.


Na vida, o caráter das pessoas é muito mais complexo. As fronteiras entre trevas e luz são muito mais difusas e, muitas vezes, difíceis de distinguir. Na ficção tudo pode até ser preto no branco, mas a vida real é no mínimo em escala de cinza.


Escala de Cinza

- A vida com certeza é bem mais complexa...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Divagações em um Quarto de Hotel

Cá estou, sozinho num quarto de hotel. Havia um colega de quarto e da aventura até um dia antes. Ele se mandou de volta para casa, eu decidi ficar mais um dia para dar um volta e conhecer melhor a cidade, o que os compromissos que me trouxeram até aqui vinham impedindo de concretizar. No entanto, a chuva veio e me fez prisioneiro do quarto de hotel e do tédio. Nada mais que uma conexão de internet meia boca, uma revista já lida e um livro do Bukowski para matar o tempo antes que esse me mate.


Através das paredes do quarto chegam aos meus ouvidos as brigas familiares do quarto vizinho. Aparentemente, a adolescente não concorda com a próxima parada da viagem familiar: preferia a praia a visitar os avôs. Sempre preferi o contrário, nunca consegui entender muito bem o conceito de ficar tomando sol feito lagartixa ser algo divertido. O sol me deixa vermelho e com os ombros extremamente ardidos, enquanto o sal deixa meus olhos irritados, e há gente que diga que isso é relaxante.


Assim que a confusão cessa no quarto ao lado, eu consigo escutar passos pesados no teto, aparentemente, indo em direção ao banheiro. O barulho da descarga e da água escoando pelos canos confirma a minha hipótese e me faz vir à cabeça a seguinte constatação: Não importa onde estejamos, sempre haverá alguém acima de nós fazendo sujeira.