sábado, 30 de outubro de 2010

Ritos

Eu acho que como boa parte das pessoas eu tive uma educação religiosa, que em geral é aquela da família, e de certa forma minha família procurava praticar essa religiosidade de forma ativa. Fiz todos aqueles sacramentos e minha mãe costumava nos levar a missa no fim de semana e durante alguns períodos tenha até participado mais ativamente na igreja.


No entanto, eu sempre lembro do meu pai não ser muito afeito a missa, lembro-me do repúdio que ele tinha das carolas, que ele gentilmente apelidava de ”bem-te-vis de igreja”, e do modo como um desses padres superstar foi gentilmente apelidado de padre da batina cor de rosa pelo velho.


Os fatos mencionados anteriormente em conjunto com o fato de ser sempre difícil prever o que se passa na cabeça do velho, o temperamento dele varia do ranzinza a pilhéria alternadamente, nunca me permitiram enxergar o meu pai como um homem espiritualista.
Portanto, me causa certa estranheza quando vez ou outra ele pratica certos rituais como ajoelhar e rezar numa igreja vazia durante um passeio ou mesmo quando quando ele põe uma medalha milagrosa no carro da minha irmã para protegê-la. Assim como o modo que ele vai com as minhas tias deixar flores, rosas amarelas para ser mais preciso, no túmulo da minha avó no dia de finados, apesar de raramente falar nada ou contar histórias sobre os meus avôs.


E eu fico aqui me perguntando se todo homem não tem os seus rituais, se eu mesmo apesar da minha descrença não tenho os meus próprios? O hábito do café no meio da tarde, escrever para o blog no sábado ou mesmo ler um livro largado no sofá...

domingo, 24 de outubro de 2010

Sonho

Nevoeiro Sonho Praia



Algumas noites atrás sonhei. E no meu sonho eu era estrangeiro em um local que sempre me fora comum e familiar, mas no sonho sentia-me perdido nesse espaço como um bebâdo que não mais reconhece o caminho de volta para casa e erra pelas ruas madrugada adentro. Em suma, uma sensação terrível de sentir estrangeiro em sua própria pátria.


Nesse ambiente, que despertava sensações tão contrastantes, rostos estranhamente familiares demonstravam uma cordialidade que ressaltavam essa sensação de inadequação ao ambiente. No sonho parecia que cada gesto de cordialidade e de afeto ficavam na superfície e não me atingiam o espírito.


Ainda no reino de Morfeu, um velho conhecido dos tempo de colégio com o qual nunca tive uma amizade estreita, me chamava pelo velho apelido de colégio e abraçava-me entusiasmadamente. E me senti estranho com aquela manifestação de afeto inesperada cuja reciprocidade não existia. Senti-me completamente estrangeiro de mim mesmo.


Saio dali e vou para um apartamento, tão impessoal quanto um quarto de hotel. E apesar de tudo, parece que aquela impessoalidade me faz sentir mais confortável. No entanto, surge um sensação de querer voltar para casa. E resolvo que deveria dar um último passeio antes de partir. Ansiosamente, procuro por algo, que não sei bem o que é, em meio a gavetas desorganizadas. Encontro uma máquina fotográfica, mas não parece ser em fotos que eu gostaria de registrar este último passeio em terras estrangeiras.


A camera fica onde estava , mas eu abandono o quarto e sigo meu caminho pela orla que se encontra estranhamente fria. Ventos batem em coqueiros com um céu acizentado ao fundo, do lado oposto da pista de asfalto um muro. E no muro muitas pessoas pintadas em tamanho diminuto mas com uma gama de detalhes e diversidade infinita. A tal ponto de eu ter a impressão de que aqueles rostos não acabam nunca e tampouco se repetem.


Eu acordo e decido registrar o sonho, como se realizasse um último desejo daquele outro “eu” estrangeiro de si mesmo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sentido Proibido


Algumas pessoas querem querem mais dinheiro, eu só queria fazer mais sentido...


Sentido Proibido
- Sentido Proibido!

sábado, 16 de outubro de 2010

Todos têm direito a opinião desde que concordem comigo!

Duas coisas me chamaram a atenção nessas eleições: a poluição no espaço urbano pelos candidatos e partidos e o modo como as pessoas não sabem respeitar a opinião alheia.

Sobre o primeiro aspecto eu já escrevi alguns textos anteriormente aqui no blog e até para o Papo de Homem (leia aqui, aqui, aqui e ali). E já cheguei a até a discutir antes mesmo da campanha eleitoral o modo como organizações religiosas tentam impor seu modo de vida na sociedade e quanto eu acho que isso é maléfico para uma sociedade laica (aqui). E eu acredito que talvez hoje seja dia de falar sobre a questão de respeito à opinião alheia.

Durante todo o processo eleitoral eu tenho recebido correntes de e-mail falando mal de ambos os candidatos. Coisas absurdas como dizer que o José Serra é calvo porque a besta botou a mão na cabeça dele ou que a Dilma usava a peruca para esconder a marca da besta e, honestamente, me chocava ainda mais ver que gente com capacidade cognitiva funcional se passando a espalhar tanta desinformação.

Algo que também me irrita é a clássica postura de que as pessoas inteligentes e preocupadas com o país são as que voltam no meu candidato, as pessoas que votam no outro candidato ou são membros da elite exploradora do povo ou são um bando de morta-fome flagelados da seca. Também me irrita a idéia propagada de que se um candidato for eleito eles vão acabar com os programas sociais todos ou que se o outro for eleito teremos uma ditadura socialista.

Isso sem contar quando se descamba para o voto de classes: mulher vota em mulher (como se eu fosse escolher um candidato por afinidade cromossômica), depois vem a questão de castas, dos grupos religiosos, os regionalismos. E ir de encontro a esses critérios significa que você é necessariamente, sexista, um herege, pária da sociedade e o pior de tudo: agora você também passa a ser contra o desenvolvimento regional.

Ainda mais interessante é o modo como isso é divulgado nas listas de e-mail, twitter, Orkut, mesa de bar e demais meios de interação social e como nessas discussões muitas vezes se perde o respeito total pelo amigo, colega de trabalho, conhecido ou mesmo parentes. Prevalece a regra de que todos têm direito a opinião desde que concordem comigo.

domingo, 10 de outubro de 2010

O embate

Sem sombra de dúvidas uma das maiores dificuldades de tentar manter um blog funcionando é encontrar temas e inspiração para continuar escrevendo. Eu acho que a questão do tema seja até mais fácil de contornar. Basta manter um caderninho com aquelas idéias que você queria falar na outra semana e não teve tempo. Faltou tema, você vai ao caderninho e puxa um. Em resumo, a velha técnica de estocar para o inverno.

A questão da inspiração já é mais complicada principalmente para quem escreve de forma amadora. Algumas arrumar a inspiração, é um embate entre pugilistas. Escriba contra a tela em branco. Primeiro a etapa da pesagem onde o escritor, ou arremedo de escritor, e o papel em branco se encaram furiosamente e ocorre aquela clássica provocação seguida de insultos verbais às respectivas progenitoras.

 boxeadora olhar sensualDuda Yankovic

- Não era bem desse tipo de encarada e provocação que eu estava falando.

Sucede-se o aquecimento, onde o escriba com pouca inspiração procura arrumar as canetas, se você for “old school”, ou posiciona-se na frente do computador com o editor de textos abertos, caso ele seja mais moderninho. Dependo do escriba, a preparação de uma caneca de café pode muito se incluir nessa etapa.

Finalmente o gongo soa, cursor piscando na tela em branco e encara o arremedo de escritor que começa a atacar a tela em branco. Esta, por sua vez, zombeteia da falta de “punch” na frase recém escrita. O escritor ataca com uma nova sentença, mas fraqueja diante da falta de uma conexão adequada para os parágrafos. O branco acerta um direto em cheio e faz pilhéria da falta de frases de efeito. E assim se dá a peleja, frases à frase ou interrupção a interrupção. O cronista cambaleia e, como o juiz estava desatento, aplica um golpe baixo, técnica da crônica da falta de inspiração e assunto. Nocaute! O juiz ergue o braço do escriba!

Boxeadoras Nocaute
-Nocaute!

sábado, 2 de outubro de 2010

Preciso falar com você...

No cotidiano, o modo de falar muitas vezes permite prever o que se espera de você sem que nada seja dito anteriormente. Todo indivíduo deve ter pelo menos uns três nomes no convívio doméstico. Um para o cotidiano quando tudo se encontra no devido lugar, um segundo que geralmente demonstra que alguém está aborrecido com a sua pessoa ou que você fez uma burrada homérica e um terceiro para os momentos de carinho ou quando pretendem te amaciar para pedir um pequeno favor. Antes mesmo que o restante da frase seja dita, já é possível imaginar a intenção das pessoas, simplesmente por essas denominações.

O mesmo vale para certas expressões, quem não sente que acabou de entrar numa roubada quando é comunicado que “necessitam de um favorzinho seu”? Venhamos e convenhamos, meu amigo, quem realmente quer pedir um favorzinho não faz cerimônia, simplesmente pede! Sinal dobrado de furada é quando aqueles parentes distantes, com os quais você mal mantêm contato, resolvem te ligar. Eles não precisam dizer nada, você já sabe: está convidado para um belo de um programa de índio.

No entanto, a pior de todas as expressões é o tal do “preciso falar com você”. Basta que essas palavras sejam pronunciadas para que passe aquele filme de estudante ginasial, ou do ensino fundamental para os mais jovens, pego em flagrante a aprontar travessuras. “Preciso falar com você” é como o terrorista barbudo a 5m de distância sorrindo e mostrando os explosivos, enquanto aperta o botão do detonador: você já sabe que não vai escapar! Assim é o “preciso falar com você”, um alerta de que você pisou na bola e que em poucos segundos virá um sermão inevitável...

preciso falar com você

- Preciso falar com você

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Texto no Papo de Homem

Saiu um texto meu lá no Papo de Homem sobre a questão das Campanhas eleitorais, se alguém se interessar:

“Se eu for eleito, prometo limpar toda a sujeira que espalhei pelas ruas…”