domingo, 12 de setembro de 2010

Seguindo em frente...

Basset Hound

Ali no balcão daquele bar vagabundo jazia um copo vazio, as suas mãos ainda sacudiam o gelo do que seria o último drink da noite. Ele já se decidira a partir daquela taberna cheirando a fumaça e a bebida barata. Porém, antes de partir terminaria aquele cigarro, já aceso e pela metade, que pendia em seus lábios. Deu um trago, olhou ao redor, soltou a fumaça pela boca observando a fumaça serpentear contra a iluminação parca daquele bar e por fim contou algumas notas, colocando-as, em seguida, no balcão.

Ao se levantar, ele deu um último trago e apagou a bituca ainda acesa num cinzeiro de metal, afixado ao balcão. Saiu pela porta da frente e ao por os pés na calçada sentiu uma lufada de vento frio e úmido, que o obrigou a ajeitar o casaco. Agora, sentindo-se mais adaptado ao frio, pois um cigarro na boca e utilizando a mão em forma de concha para proteger o isqueiro do vento, acendeu-o.

Ele seguiu subindo a rua e pensando na vida, tudo que o levara até o presente momento. Pendou nas escolhas que tinha feito e que o transformaram naquele homem solitário, ranzinza, bebarrão e capaz de fumar tanto. Ele não tinha mulher, filhos, ou nenhum parente que pudesse considerar uma família, talvez um primo ou tio de quem há muito não tinha notícias, ainda estivesse vivo. A verdade era que mesmo que ainda estivessem vivos, ele pouco se importaria. A coisa mais perto de uma amizade que ele possuía era carinho daquele velho basset hound, que provavelmente já estava com os dias contados, afinal de contas um cachorro raramente dura mais do que os dezesseis anos que já tinha aquele animal.

Terminou mais um cigarro, jogou a pituca no chão e pisoteou-a com. Pensou que ele realmente, nunca fora um homem de envelhecer em família, com mulher e filhos esperando para o jantar. É, pelo menos ele podia chegar em casa tarde e cheirando a bebida barata, sem que ninguém o interpelasse. O melhor de tudo podia, podia sentar e escrever seus poemas vagabundos na velha Underwood sem que nenhuma viva alma o atrapalhasse. Tentou acender mais um cigarro, o vento não permitiu e ele praguejou:

- Maldito tempo, nessa porcaria de cidade!

E continuou andando, naquela idade não havia muito o que ele pudesse mudar em sua vida, ele só podia continuar seguindo em frente...

14 comentários:

Pequeno Grande Mundo disse...

Ah a solidão... Mesmo q n se apercebam ela é muito dolorida...

Belos e Malvados disse...

Toda vez que entro aqui custo a acreditar que você seja engenheiro. rsrs. Liga não. É que acho a profissão muito prática para uma pessoa com veia poética.

Rachel Chagas disse...

Se você escrevesse um livro, eu compraria!!

Muito bonito o texto, apesar do conteúdo tristonho.

Já disse que sou apaixonada pelos detalhes que você põe nos textos? Dá pra viajar na bituca do cigarro, no copo vazio...

Leonardo Xavier disse...

É Karoll, você tem razão.

Sabe Anne, que eu acho que algumas vezes a engenharia é meio discriminada, mas engenheiros assim com os poetas também vivem de sonhos e de torná-los realidade, kkkk! E tanta coisa bonita que a engenharia faz que a gente deixou de prestar atenção no nosso cotidiano que são tão bonitas quanto um poema. kkkk!

Rachel, não dá idéia que eu faço o livro e já mando com a fatura da conta! kkkk!

Marina disse...

Ninguém vive só. Até mesmo um solteiro convicto, conformado com a vida que leva, precisa da companhia de um cachorro. Pelo menos o bichinho não vai reclamar do cheiro de cigarro. Não com palavras.

Muito bom o texto, Leonardo. Há alguma beleza na tristeza, na solidão. Quando não são minhas.

S. disse...

menino, essa sensação é virus da estação, é?
beijinhos doces

bebendo.com.br disse...

ótimo texto, me lembrou muito o Vidas Despercebidas do Pacha Urbano. Momentos que sempre causam identificação.

Rachel Chagas disse...

Aproveitador... ¬¬

Leonardo Xavier disse...

Marina, algumas vezes minha tristeza e solidão me fazem escrever os textos, e algumas vezes eu consigo achar um pouco de beleza nos textos e então minha tristeza me alegra.

S., pior que eu acho que realmente está parecendo que é a nova virose.

Pow, Cafeína. Eu estava totalmente por fora do Pacha Urbano... Na real eu acho que já li um post dele que foi parar nas minha recomendações do google reader.

Rachel, eu pelo menos avisei! Devia ganhar um pontinho pelo menos por ser um aproveitador honesto. kkkk!

Camila disse...

Nossa! Que conformismo. Ele precisa de uma namorada bem animada ou um grupo de amigos descolados.

Andrade disse...

Esse texto me deu vontade de fumar!
vou lá pro terraço

Uma namorada animadinha anima qualquer homem solitário

Leonardo Xavier disse...

É impressão minha ou tem muito devoto de Santo Antônio visitando o blog, kkkkk!

so sad disse...

muito real, quase aconteceu comigo se um beijo não tivesse me acordado, assim, como nos contos de fada!

Leonardo Xavier disse...

Oi So Sad, eu confesso que fiquei curioso. Se tiver link para a postagem me avisa.