segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Reflexos no Espelho

Reflexos Espelho

Ele acordava todos os dias com a campainha do despertador, levantava-se ainda atordoado com o ruído e desligava o aparelho. Em frente ao espelho lavava o resto na água fria da manha e escovava os dentes, mas naquela manhã em particular ele se olhou no espelho e não se reconheceu. Estranhamente ele não se reconhecia naquele rosto envelhecido, parecia que aquelas rugas nos cantos dos olhos e na sua testa juntamente com aqueles cabelos brancos nas têmporas não o haviam acompanhado até então. No entanto, ele sabia que ninguém fica velho de um dia para o outro e que tudo aquilo era fruto de transformações que duraram anos.


Apesar de tudo ele sabia que o tempo e vida o haviam transformado naquilo, sabia que vida também o envelhecera por dentro. Sentia o peso de cada sonho que abandonara em prol de ser maduro, profissional e razoável. De quanto coisa ele já abrira mão para poder pagar as contas e manter aquele emprego, que apesar de não ser o trabalho que ele sonhara, ainda pagava bem. Ele parou para pensar nas mudanças e não conseguia se lembrar de quando trocara os tênis por sapatos e as camisetas por camisas sociais, nem tampouco de como a gravata lhe fora parar no colarinho.


Os dias se sucediam, novas rugas surgiam ao se olhar no espelho do armário do banheiro. O rosto cada dia mais envelhecido com os mesmos azulejos brancos de fundo, que coincidentemente eram da mesma cor que avançava a cada dia na sua cabeleira cada vez mais escassa. Até que um dia ele olhou o espelho e um ancião se mostrou refletido pela superfície. Ele estava velho e o pior de tudo: ele já não tinha mais sonhos...

15 comentários:

Felipe "Miro" 'Dreads' disse...

E é assim... um ciclo vicioso...

Felipe "Miro" 'Dreads' disse...

Com todos nós...

- sáminina. disse...

Uma crônica, adorei. E foi uma crônica linda falando sobre o tempo. Sabia que o termo "crônica" vem do latim "cronus" que significava o deus do tempo na antiga mitologia grega?
Uma crônica sobre o tempo (o passar dele). Combinou bem :)

Caminhante disse...

Triste. Será que é inevitável? (isso foi indireta pra você tentar responder)

Leonardo Xavier disse...

Raiza, eu confesso que sua aula de etimologia me lembrou do blog da Laís Castro que tem uma série de posts no Pátria Amada chamada "Etimologia das Palavras". Eu acho que vale a pena passar lá. Eu também confesso que não tinha associado o Cronus ao estilo de texto, só ao adjetivo.

Caminhante, realmente é uma pergunta difícil... eu acho que tudo na vida tem um preço e as pessoas tem a opção de pagar esse preço por mais alto que ele seja, eu acho que sempre há uma opção. A questão talvez seja quanto você sacrificaria por seus sonhos? Ou quantos sonhos você sacrificaria por conforto?

S. disse...

Querido, gosto desse jeito assim, assado teu de escrever. Nada a discordar.
Felizmente?
beijinhos entre livros

Marina disse...

Envelhecer, certo. Mas nunca perder a capacidade de sonhar. É como eu quero ser.

Quem precisa de diálogos quando sabe narrar tão bem? Beijos, Leonardo.

Mônica Wesley disse...

Não me fale em espelhos, rugas... Estou eu aqui, 25 anos, 25 pés de galinha e não conquistei nada além dessa indecisão crônica.
=/

Cℓαudïαnє disse...

Muito bom,o ponto em que se fala em sonhos e conquitas.. me deu gosto de ler
ótima semana!

Belos e Malvados disse...

A gente vai se sucedendo, como em retratos (seu texto me lembrou esse verso de um poeta feirense que gosto muito, Roberval Pereyr. Acho verdadeiríssimo).

Rachel Chagas disse...

Nossa, seus textos andam tão melancólicos...

Leonardo Xavier disse...

Marina, eu espero que todos possamos chegar a velhice assim cheio de sonhos.

Que nada Mônica dá para ver pelas fotos lá do teu blog que você está super bem.

S., fico feliz que você tenha gostado e quando quiser discordar fique à vontade.

Claudiane, eu fico contente com o elogio boa semana para você também!

Poxa Anne, se der tem como postar um link aqui para algum texto do Roberval ? Fiquei curioso para ler pelo menos um texto.

Rachel, eu acho que você tem razão... Eu acho que tem um pouco a ver com uma idéia que eu anda rondando na minha cabeça de tentar achar beleza em todos os sentimentos humanos inclusive na melancolia. Mas os textos irônicos e rebeldes voltarão! kkk!

Pequeno Grande Mundo disse...

Tem gente que morre em vida...

Leonardo Xavier disse...

Karoll, pior que você tem razão.

Belos e Malvados disse...

Leo, vc pode encontrar alguns poemas de Roberval aqui
http://www.revista.agulha.nom.br/perey.html

e aqui
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/bahia/roberval_pereyr.html

A criatura não é muito afeita a internet e não tem site oficial.