terça-feira, 25 de maio de 2010

Sobre cartas de amor e lembranças



Eu acredito que o texto passado e os comentários que surgiram me levaram a seguinte reflexão: será que para se recordar das coisas realmente precisamos de meios físicos ou de registros. No caso das cartas de amor autodestrutivas era só uma piada, o público feminino do blog pode ficar tranqüilo que eu não vou tentar patentear essa idéia e nem vendê-la para nenhuma mega-corporação.

Os meios físicos sempre foram uma das formas de transmitir informação, seja através das pinturas, esculturas, livros e talvez boa parte da nossa capacidade de reconstruir a história venha desses meios. As cartas trocadas, diários e manuscritos de diversas personalidades históricas já foram utilizados para tal fim. No entanto, eu acho que quando se trata de sentimentos, eu me pergunto se esses registros realmente são capazes de captá-los tanto em intensidade quando em suas mais variadas nuances.

Tomemos o caso dos sentidos, eu acho que até agora todas as formas de transformar em registros nossas sensações, ainda não são capazes de alcançar todos os sentidos. Dificilmente uma fotografia que se tire do mar vai registrar a sensação da brisa que toca a nosso a pele enquanto estamos ali sentados na areia nem tampouco o cheiro da maresia.

Isso tudo me faz ficar pensando que as verdadeiras lembranças são aquelas que nós realmente carregamos conosco. Agora mesmo basta eu parar para pensar que eu consigo me lembrar de alguns momentos marcantes na minha vida, das conversas com as pessoas especiais, da imagem delas naquele momento marcante, do seu timbre de voz e dos seus cheiros. Eu particularmente sem nenhum desses registros consigo me lembrar de muitas conversas com o meu avô, do sabor das comidas que minhas avós faziam, do toque nos cafunés feitos pela minha mãe enquanto eu assistia televisão com a cabeça em seu colo. Consigo lembrar a sensação de ter um familiar cuidando de mim quando estava enfermo, da pressão daquele abraço apertado que consola as lágrimas, assim como o cheiro e gosto dessas.

Eu vou além e questiono: quem nunca pôs a cabeça no travesseiro e ficou ali deitado olhando para o teto a lembrar de uma pessoa especial, e quantas vezes não vivenciamos novamente a sensação de deslizar as mãos pelos cabelos dessa pessoa, de como a sua mão nos tocava. Quantas vezes essas lembranças não são fortes o bastante a ponto de podermos sentir novamente o perfume dessa pessoa. E talvez nenhuma carta nenhuma carta de amor realmente possa conter todas essas lembranças, por que a lembranças importantes nós sempre as tivemos e sempre as teremos carregadas conosco e gravada em um lugar lá dentro do peito. As cartas de amor e todos os registros podem até se destruir, mas as lembranças... essas vão sempre comigo.

11 comentários:

Leni disse...

Lindo texto e, concordo contigo que, as melhores recordações temos dentro de nós mesmos, nenhuma foto ou objeto, vão poder trazer de volta o que realmente sentimos naquele momento. Agora pensamentos, isso é tão nosso, tão intenso tão interno, que guardamos lá no mais íntimo e quandoa saudade sufoca, ou a vontade se torna viva, podemos reviver este momento, não de fatro, mas em nossa mente. Pois lembramos somente daquilo que queremos, e guardamos aquilo que relmente nos faz bem...
Então, as cartas de amor são ótimas,adoro recebê-las, mas elas com o tempo vão desbotando, ficando amareladas e as letras sumindo, a memória não, está lá, intacta, sempre antenta!
Adorei, obrigada pelas palavras!
beijos querido

- sáminina. disse...

Dessa vez eu vou ter que discordar, rs!
Leonardo, existem dois tipos de memória: a memória recente, que guarda os fatos que acontecem na nossa vida e que são relativamente recentes; e a memória antiga, ou passada. Essa memória passada funciona como um arquivo de escritório: fica ausente, guardada, e quando precisamos dela, podemos consultá-la.
Acredito que certas lembranças estão sempre conosco porque são gravadas na nossa memória recente. Outras, como já fazem certo tempo, estão ligeiramente "escondidas" no nosso cérebro porque precisamos de mais espaço no HD para as novas informações que obtemos todos os dias. Mesmo que algumas lembranças nossas estejam salvas no HD da memória passada, elas não deixam de ser especiais ou muito marcantes, muito menos deixam de ser importantes. É aí que entram os registros escritos, físicos. Eles servem como uma chave pra abrir o arquivo da memória passada, pra que ela fique fresca novamente na nossa cabeça.
Bom, pelo menos é a minha teoria né!!
ótima semana ;)

Belos e Malvados disse...

Que texto iconoclasta, né? rsrs. Também acho que muitas memórias independem do registro físico, outras não. Quando percebo que não consigo lembrar direito do rosto de minha mãe, por exemplo, o que me salva são as fotos. Acho que enlouqueceria sem elas.
E tem mais, com o tempo, a memória vai se confundindo com a imaginação e são os registros físicos que vão diferenciar uma da outra e impedir que a gente viva num mundo eterno de fantasia.

Polly Ana disse...

Achei o texto ótimo. Em partes até concordo com você: há memórias tão fortes, tão nossas, tão marcantes que existem e independem de registros. Ficam ali com a gente durante toda a vida, são memórias que nos formam. No entanto, há outras lembranças que são provocadas pelos registros, ou seja, quando vc lê uma carta (estou me utilizando de um exemplo que vc mesmo deu) de amor, vc não passará apenas pelas palavras. A carta será o início de uma viagem por lembranças, boas ou ruins, mas memórias que constituem toda a caminhada até chegar na carta. Eu mesma tenho umas cartas guardadas, umas cartas de amor, quando as leio, sempre penso no relacionamento como um todo, lembranças mil me invadem e não só aquele registro. Os registros são vivos, são importantes tb nesse processo de memória. Não são únicos, mas são instrumentos.

Leonardo Xavier disse...

Raiza, eu não tava pensando tanto do ponto de vista cognitivo. Desse ponto de vista eu concordo com você e eu sei que tem certas coisas como cheiros, por exemplo, podem ser utilizadas como gatilhos para disparar memórias.

Anne( eu confesso tive que ir lá filar no Belos e Malvados), eu acho que algumas vezes eu sou meio iconoclasta, mas dessa vez até que eu achei que não. Eu acho que quanto a questão de não ter as fotos para lembrar o rosto da sua mãe, eu penso o seguinte: mesmo que você não conseguisse lembrar do rosto dela. Eu acho que você não esqueceria o carinho, alguma vez onde ela te apoiou quando você mais precisava ou de algo especial que ela fez para você. Isso ao meu ver vale mais do que a lembrança do rosto, que por sinal é algo mutável, enquanto essas atitudes bonitas ficam cristalizadas. E quanto a questão da precisão da memória, eu pergunto se quando registramos algo através de anotações e outros meios, também não perdemos informação também?

Polly, eu acho que é bem por aí, eles servem de gatilhos para disparar as memórias, mas elas tão ali com você, não é ?

Raquel disse...

Pior que é... enquanto os serviços oferecidos pela empresa "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" não estão disponíveis no mercado... "se vira!"

Belos e Malvados disse...

Eu, particularmente, preciso de tudo: das lembranças que não têm registro e do registro de algumas lembranças. Saindo pro geral, pense na história da humanidade sem os registros físicos. Pense num mundo sem bibliotecas, museus...
Beijoca.

Leonardo Xavier disse...

Anne, eu concordo que os registros são importantes e tudo mais e que realmente um livro sem bibliotecas e museus provavelmente seria muito atrasado só teríamos como passar conhecimento entre 2 ou 3 gerações no máximo, provavelmente a tecnologia e conhecimento científico ainda seriam idênticos aos da idade média. Eu só sinto que no meu caso em particular para as lembranças sentimentais eu acho que eu não me apego tanto a essas coisas. Para mim importa o que eu consigo carregar na minha memória.

Pequeno Grande Mundo disse...

Para lembrar n precisa de nada físico... Se fosse só isso seria até fácil, quero esquecer de um fato ruim vou lá e destruo aquilo q me lembra ele... Mas às vezes é bom ter coisas físicas q lembrem, é gostoso...

S. disse...

Meu trabalho como artista é no momento, todo baseado em cartas. Uma das minhas intalações são as cartas que troquei com minha mãe enqunato morei em fernando de Noronha costuradas com linha azul formando uma espécie de rede.
Gostei muito, muito daqui.
Abracinhos fofos.

Camila disse...

Mas Leonardo, a gente não lembra de tudo, né?! Tem coisas que a gente esquece, tem coisas que a gente esquece dos detalhes, as cartas dão uma forcinha a memória e a partir da carta cê se lembra de um determinado momento, de um sentimento, do que se passou quando você recebeu aquela carta... Eu, por exemplo, me expresso infinitamente melhor quando escrevo então escrevo muitas cartas, me chatearia muito saber que as cartas que eu escrevi foram jogadas fora. Quando alguém te escreve uma carta ela pára tudo que ela tá fazendo, pensa só em você e escreve as coisas mais carinhosas que ela conseguir. Nossa, tenho a maior consideração pelas pessoas e cartas que me foram escritas. São meus tesouros.
As cartas dos teus pais mesmo, por mais "ridículas" que sejam, eles nunca poderaim ter te mostrado se elas se auto destruissem. As cartas fazem parte da vida, da história, dá uma coisinha boa quando se lê uma antiga carta de amor... ai ai.... rs