quarta-feira, 24 de março de 2010

Humanizando o Inimigo

Depois de ler ”A heroína não destrói o seu senso crítico”, texto da Daniela Ramalho lá do Bocas Po Barulho, onde ela relata um diálogo entre viciados numa das suas viagens de metrô, imediatamente me veio à mente aqueles filmes de guerra. Sabe aquela postura bem típica onde os soldados de um dos lados do embate se referem aos combatentes do lado oposto. Sim, eles se referem sistematicamente aos seu opositores como “o inimigo”, o que ao meu ver parece uma estratégia bem comum nos conflitos armados para desumanizar aqueles a quem se está a enfrentar. O outro deixa de ser humano, para de defender uma bandeira, deixa de ser um homem que tem uma família esperando que ele retorne, enfim mandar chumbo no inimigo é bem mais fácil.

Agora o leitor deve estar pensando: “Está bem, mas que diabos isso tem a ver com os viciados?”. Bem eu acho que a maioria das vezes a postura que a sociedade adota em relação aos dependentes químicos é bem semelhante ao comportamento anterior. Eu acredito que na maioria das vezes a sociedade cola um rótulo de “drogado” e facilmente nos esquecemos que atrás daquele rótulo se esconde um ser humano.

Não que esteja isentando os usuários de drogas da sua responsabilidade para consigo e para com a sociedade. Eu ainda acredito em consumo responsável e que boa parte dos impactos sociais e ambientais no mundo atual causado por organizações, sejam elas idôneas ou criminosas, é em parte financiada pelo consumidor final.

A partir desse ponto de vista, eu acredito que humanizar o dependente químico e torná-lo um cidadão livre do vício pode ser uma das formas de romper a cadeia que torna narcotráfico uma indústria lucrativa. Eu creio que tratando o dependente químico como um ser humano que possui um problema de saúde, que se tratado pode possibilitar a reintegração de desse ser humano à sociedade e à família. Por isso o investimento mais sério no tratamento da dependência química pode vir a ser modo para tratar esses seres para que eles voltem a produzir para sociedade, além de tirar clientes do narcotráfico e conseqüentemente financiadores da violência urbana.

Por isso eu acredito que em tempos de paz, talvez humanizar o inimigo possa ser uma solução muito mais eficiente.

Soldado Ser Humano

8 comentários:

Daniela Ramalho disse...

eu concordo totalmente com a tua perspectiva, espero que com o meu texto não tenha passado a ideia contrária. Simplesmente achei curioso que eles, que teriam todos os motivos para não gostar da polícia, estivessem a defende-la e a falar sobre isso assim tão abertamente como se achassem que ninguém tinha percebido que eles eram toxicodependentes. Mas é óbvio que eu acho que o estado tem a responsabilidade de lhes oferecer a cura e de os integrar na sociedade :P

Leonardo Xavier disse...

Eu gostei do texto justamente, por que a maioria das vezes eu tenho a impressão que as pessoas simplesmente escolhem o lugar mais distante possível quando se encontra com um drogado no ônibus e quase nunca vejo as pessoas observando o comportamento deles.

Mônica Wesley disse...

Estou interpretando seu humanizar de duas formas:
- Conscientizar sempre foi o primeiro passo pra qualquer coisa.
- Humanizar o tratamento, que não é uma doença física, embora na abstinência de drogas, muitos sintomas sejam físicos, o tratamento tem que ser na mente. Qualuqer tipo de vício é uma doença psicológica.
=*

E confesso, eu sou uma dessas pessoas que sentam o mais distante possível de um drogado no onibus, mas não por preconceito, talvez no meu subconsciente tenha medo, mas o que me dói e não só numa situação dessa é q EU não posso fazer nada pra ajudar, então prefiro nem olhar. É uma sensação de impotência.

Felipe "Miro" 'Dreads' disse...

Não apenas quanto aos dependentes químicos mas também quanto aos ex-detentos... ou pessoas que possuam qualquer tipo de deficiencia física ou psicológica que muitas vezes são tratadas com muito desrespeito.

Luiz Mussio disse...

Concordo com seu texto. Precisamos parar de criar esse mundo de antagonistas e prestar atenção em cada pessoa de maneira unica. A gente tem varios esteriotipos que tem por finalidade nos facilitar o julgamento dos outros, mas só vemos o quanto isso é nocivo quando nos vemos sendo enquadrados a força num esteriotipo, pra que as pessoas não se dêem ao trabalho de nos conhecer melhor.

Leonardo Xavier disse...

Mônica, eu acho que o que eu queria dizer com o humanizar era conseguir ver a pessoa além do rótulo de dependente. E eu acho que a dependência é terrível por que se manifesta tanto de forma psicológica como química. O organismo realmente se acostuma a trabalhar com doses elevadas de certos compostos, e se você corta a pessoa sente diversos efeitos colaterais. Quem nunca teve um conhecido que sente dor de cabeça se não tomar aquele cafézinho pela manhã? É o organismo lá pedindo cafeína, imagina com outras substâncias?

Patrícia disse...

Ninguém falou da imagem! Tocante como no meio dessas coisas todas ainda existe a ternura. Eu trabalho com detentos, e as vezes me impressiono como de mentes que criaram tanto mal, podem surgir coisas tão bonitas. Vocês precisam ver as coisas que eles fazem na marcenaria. A criatividade, a riqueza de detalhes, as cores. Tanto potencial desperdiçado. E como se tornam humanos quando as vítimas são eles... do sistema, da falta de higiene, da dificuldade de acesso a saúde...
Conflitos...

Mônica Wesley disse...

Endereço do blog mudou: http://monicawesley.blogspot.com/
Mira lá... Bjo!